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Entrevista - (20/10/2008)
Luisa Paiva

Montagem sobre Foto de 
Marcelo Maragni

Perfil
Foto Divulgação

Nome: Jaqueline Mourão
Apelido: Jaque 
Nascimento: 27/12/1975
Naturalidade: Belo Horizonte (MG)
Residência atual: Mont Saint Anne, Quebec (Canadá)
Principais conquistas: 9ª posição no ranking internacional UCI (2003); 4ª colocação na Copa do Mundo do Brasil (2005); 3ª colocação na Copa do Canadá em Bromont (2005); 21ª no ranking final da Copa do Mundo UCI (2003); 2ª colocação Swiss Cup - etapa Perrefite (2003); 8ª colocação no Campeonato Mundial UCI de Maratona, Suíça (2003); 4ª nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro (2007); Vice-campeã Pan Americana XC MTB (2008)

O começo

"A minha primeira prova, aos 15 anos, eu corri com uma bike emprestada. Os amigos me ajudavam a pagar a passagem de ônibus para eu competir e ficava em alojamento. Trabalhava, estudava, treinava. Dei muita aula para poder comprar minha bike, e também tive muita vontade e dedicação para conseguir patrocínio. Sempre soube o que queria e o que eu precisava para chegar lá. Eu ainda não era ninguém, mas já tinha certeza de tudo. Aí lá fui eu para uma reunião com o diretor de marketing da Fiat e mostrei para ele todo o meu projeto de treino, de provas, os equipamentos que queria. Saí de lá com um contrato de quatro anos porque eu sabia o que precisava para ser uma atleta internacional. Não foi uma trajetória fácil, tive acidentes, sofri duas lesões fortes, mas continuei. Foi muito importante a força dos amigos e da família. E existe essa energia, que quando você quer muito uma coisa, ela acontece. O importante foi o meu caminho, com as vitórias e derrotas. Se deu certo ou não, eu lutei. Vou fechar um ciclo agora e quem sabe mais para frente eu penso em voltar."

Foto Divulgação
Jaqueline já se destacava em suas primeiras corridas no MTB

Nos 17 anos dedicados ao mountain bike, a mineira Jaqueline Mourão ajudou o esporte a crescer e cresceu com ele. A árdua, mas prazerosa missão de representar o Brasil no cenário internacional a levou a duas olimpíadas e recheou prateleiras de troféus. Porém, agora a ciclista decidiu tomar outro caminho em sua vida que nada tem a ver com as empoeiradas competições.

A mudança não aconteceu de repente, e como tudo na vida de Jaqueline, foi minuciosamente planejada com a certeza de quem sabe o que quer. A biker, que esteve entre as top-10 do mundo, se casou, mudou para o Canadá e já deu os primeiros passos em outra modalidade: o esqui cross-country. “Estou realizada no mountain bike e está na hora de buscar novos desafios”, decretou a maior biker do país.

Mesmo deixando os campeonatos de mountain bike, uma das maiores incentivadoras e desbravadoras do esporte no país não vai dar as costas à nova geração. Jaqueline quer deixar sua herança, ensinar tudo o que aprendeu às cabeçadas, para que as próxima atletas sejam ainda melhores do que ela.
 
Em entrevista exclusiva à Gazeta Adventure, a mineira contou suas realizações e frustrações no mountain bike, falou sobre seu projeto com jovens ciclistas e dos próximos planos que traçou para sua vida.

Gazeta Adventure: O que levou Jaqueline Mourão a deixar o mountain bike?
Jaqueline Mourão:
Depois de passar por duas olimpíadas, colocar o Brasil no top-10 internacional e conseguir ótimos resultados no meu país, quero viver novas experiências. Não deixei de curtir o mountain bike, é o meu estilo de vida e vou pedalar para sempre. Estou deixando o lado competitivo do esporte, mas estarei nas trilhas, curtindo com meus amigos, fazendo cicloturismo.

GA: Quais as novas experiências que você busca?
JM:
Quero me dedicar ao esqui cross-coutry, tive uma experiência muito boa em uma Olimpíada de Inverno e quero repetir a dose. Descobri o esporte muito tarde e não sei até onde posso chegar. Vou tentar representar meu país mais uma vez nos Jogos Olímpicos.

GA: Como você descobriu o mountain bike?
JM:
Foi paixão à primeira vista. Sempre acampei com meu pai e freqüentei várias escolinhas de esporte. Então, achei um jeito de juntar duas coisas que eu adorava: o esporte e a natureza. E assim fiz do MTB minha vida, tudo que eu conquistei foi graças ao esporte.

GA: Como foi o início da carreira de ciclista?
JM:
Quando comecei a andar com as tops, eu sofri por falta de instrução. Aprendi tudo na marra, não tinha estrutura. Um conhecimento básico teria evitado vários erros.

GA: Você considera difícil a carreira que escolheu?
JM:
Foi difícil, mas não penoso. Fiz muitos sacrifícios porque queria alcançar os melhores resultados, experiências, abrir novos caminhos. Mas agora despertei outro desejo que é ajudar outros meninos a buscar excelência, o prazer de ver a continuidade do mountain bike no Brasil.

GA: Em que momento você se sentiu cansada da vida de ciclista?
JM:
No ano passado me dediquei muito, me sacrifiquei, viajei de um lado para outro, fiquei doente, tudo porque eu queria a vaga olímpica para o Brasil. Eu me cobro muito, acho que já vivi tempo suficiente nessa pressão.

Foto Divulgação
Foto Divulgação
Jaqueline sonhou com a medalha do Pan-americano do Rio, mas terminou em 4º lugar
Foto Divulgação
A mineira nas Olimpíadas de Inverno de Turim-2006, com sua nova paixão: o esqui

GA: Qual foi sua maior frustração nesses 17 anos de profissão?
JM:
Os Jogos Pan-americanos do Rio. Eu queria muito aquela medalha em solo brasileiro. Fiz uma boa prova, mas não estava para mim, terminei em quarto lugar. E nos Jogos de Santo Domingo, em 2003, eu fui a quinta colocada. Nunca consegui uma medalha do Pan.

GA: E qual foi o maior orgulho da sua carreira?
JM:
Quando venci a campeã olímpica, na Swiss Cup 2003, foi a primeira vez que estive entre as tops do mundo. Também quando venci a Copa do Mundo de Maratona no Canadá, foi muito difícil, ganhei da Paolaezzo, bicampeã olímpica. Entrei para a história.

GA: O que você leva de lembrança dessa época de competições?
JM:
Receitas (risos). Eu coleciono receitas dos atletas que conheci em competições pelo mundo. É uma necessidade de aprender coisas novas, conhecer outras culturas e me aproximar das pessoas. Toda vez que estou cozinhando e fazendo uma receita, me lembro da pessoa que me ensinou.

GA: E essa onda do esqui?
JM:
Me apaixonei pelo esqui em 2005 e fui para a Olimpíada de Inverno em 2006. Agora quero me dedicar 100% para chegar a mais uma olimpíada daqui dois anos, que vai ser no Canadá, onde moro.

GA: Você vai substituir o mountain bike pelo esqui?
JM:
De certa forma. Preciso sair do MTB, mas sou muito competitiva e o esqui vai me ajudar nessa transição, e é também uma motivação de aprender mais. Sei que vou sentir falta do mountain bike, das pessoas envolvidas com o esporte, da competição.

GA: A mudança de esporte tem a ver com a mudança de país?
JM: Estou mudando tudo de uma vez. Quero estudar mais para ser treinadora no Canadá, onde o mountain bike é forte e a organização do esporte é melhor. Lá é bom demais, as pessoas são alegres e eu me sinto segura, não tem violência. Os únicos problemas são o frio e ter que ficar longe da minha família.

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