Mais que o número de medalhas que carrega no peito, um ídolo é reconhecido por meio do barulho omitido pelos fãs quando aparece em público. Mesmo não tendo ganhado os X Games Brasil 2008, ninguém arrancou mais gritos do lotado Sambódromo do Anhembi que o pentacampeão mundial Sandro Dias após completar o 900.
Além de favorecer os espectadores com suas manobras no half-pipe, Mineirinho ajudou a realizar a etapa internacional das olimpíadas dos esportes de ação em São Paulo, de 25 a 27 de abril. O skatista falou à Gazeta Adventure sobre o evento, da produção ao campeonato.
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Perfil |
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Nome: Sandro Dias Apelido: Mineirinho Data de Nascimento: 18/04/1975 Natural: Santo André (SP) Residência: Santo André (SP) e Califórnia (EUA) Principais conquistas: Pentacampeão do circuito mundial WCS (2003 a 2007), e bicampeão do Circuito Europeu (2001 e 2003) |
Gazeta Adventure: Qual foi a sua participação no projeto dos X Games Brasil?
Sandro Dias: Acompanhei os X Games desde o nascimento da idéia, as primeiras reuniões com a organização, participei da produção do evento, a montagem da pista. O resultado foi a realização de um sonho, deu tudo certo. Tivemos medo que não tivesse muito público por causa do valor do ingresso, mas lotou todos os dias. O Brasil é muito carente de grandes eventos.
GA: E como atleta, o que achou do evento?
SD: Foi ótimo, um evento assim dá credibilidade a todos os esportes que participam, ocupa espaço na mídia e traz possibilidade de patrocínio para os atletas. É importante principalmente para os brasileiros, para divulgar o esporte, mostrar a nossa cara e até mudar a idéia errada que muitas pessoas têm do esporte radical.
GA: Você foi o quinto colocado. Como avalia a sua participação?
SD: Andei bem na final, mesmo não acertando a manobra que eu queria (900º). Acho que o julgamento foi incoerente, eu devia ter uma posição melhor. O Bob (Burnquist) andou muito bem e mereceu o primeiro, mas o Digo (Menezes) mandou só um 720º e a final não é uma manobra, mas um todo, como a apresentação do (Lincon) Ueda, que também merecia uma posição melhor. Foi injusto.
GA: O 900º que não saiu na final, você completou logo depois do tempo regulamentar. Foi a pressão do público?
SD: Não, porque esse é o tipo de manobra que só sai sob pressão. Fiquei sem fazer o 900º uns dois anos por causa de uma lesão, mas acertei em um campeonato na China há duas semanas, por isso vim confiante para tentar na final e não deu. Mas eu não ia sair dali sem acertar, por mim e pelo público, e foi logo depois que terminou, ainda na euforia da final, a galera gritou muito.
GA: Está sendo um bom ano?
SD: Venho andando bem. Consegui o segundo lugar no Oi Vert Jam, na China ganhei com a melhor manobra, e agora nos X Games também fui bem. Dá para esperar mais um bom resultado no mundial.
GA: Quais os próximos campeonatos que irá participar?
SD: Tenho um tempo para descansar e treinar até junho. Estou tratando de uma lesão no ombro, mas estarei bem para as cinco etapas do AST Dew Tour nos Estados Unidos e as outras duas etapas do mundial em julho.
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| Mineirinho comemora após acertar o 900º nos X Games Brasil 2008 |
Debate
Ele fala baixo e calmo, está sempre sorridente. Mas Mineirinho também sabe brigar pelo que acredita, cutucar, reclamar. Mostramos a outra face do herói.
GA: A organização dos X Games quis tirar o vertical da competição. Você participou dos protestos para impedir?
SD: A ESPN deu uma viajada e chegou a tirar o vertical de skate e BMX dos X Games de Los Angeles, alegando que está ultrapassado, sem novos atletas, e queriam colocar uma espécie de pista de street maior, o super park. Mas isso é mentira, porque além dos muitos profissionais que estão andando, o mundo tem pelo menos uns 40 amadores tops para garantir o futuro da modalidade. Os atletas se reuniram para mostrar que não tinha nada a ver. Mandamos vários e-mails, tivemos um tipo de fórum de discussão pela internet, até que eles pediram desculpa e colocaram o vertical de volta.
GA: Você, que defende a inclusão do skate nas Olimpíadas, não acha que isso pode provocar uma mudança no esporte?
SD: A idéia das Olimpíadas existe, mas não tem nada a ver com as mudanças que acontecem no dia-a-dia, a evolução da rampa, as manobras novas, as tendências. O que mais preocupa o grupo a favor do skate como esporte olímpico é que o aceitem como ele é, com as mesmas regras, formato e estilo. E acredito que encaixa muito bem, pode rejuvenescer os jogos. Eu mesmo não tenho vontade de assistir muitos esportes das Olimpíadas. Tipo: peteca tem público? (o atleta refere-se ao esporte badminton)
GA: O Brasil tem atletas de ponta no skate. Tem onde treinar aqui ou é preciso ir para fora?
SD: Sou skatista há 22 anos, 13 anos profissional, e ainda não tenho onde treinar na minha cidade (Santo André). Ou os profissionais têm pista particular, como é o meu caso há dez anos, ou andam na pista de amigos. Mas está começando a aparecer as públicas, como a de São Bernardo, que é uma das melhores do mundo, e existem projetos para São Paulo e Santo André. Acredito que os grandes eventos que estão vindo e toda a mobilização que causam, chamam a atenção dos governantes.
GA: E os amadores, estão bem servidos?
SD: Tem muitas pistas em São Paulo, mas todas na periferia. A molecada da classe média tem vontade de andar, mas não tem acesso. Precisa de estrutura mais centralizada. E isso também é só no sudeste, porque no resto do país é bem mais difícil. Recebo e-mail de gente do Brasil todo pedindo ajuda para treinar, querendo que eu converse com o prefeito, mas é difícil até na minha cidade. Faço o que possível para ajudar o esporte.
GA: O que você curte mais em ser um ídolo do skate?
SD: O mais legal é poder ajudar as pessoas que tem vontade, mas não tem condições. Quero que todos possam se beneficiar das minhas conquistas, envolver os amadores, os profissionais, criar mais força para o esporte, atrair eventos e fazer acontecer. Eu faço o “Dia D” em Santo André, e é muito legal. Comprei uma rampa para a gente ter uma estrutura legal para receber os campeonatos. Ela fica desmontada, é só para eventos, como o Oi Vert Jam e X Games Brasil.
GA: Antes dos X Games rolou um boato que você e o Bob teriam se desentendido. É verdade?
SD: Não tem nada a ver, demos até risada disso. No skate nós somos uma família. A gente se ajuda, não tem rivalidade nem inimigos. Eu e o Bob temos idéias diferentes, ninguém é igual, mas rola um respeito. Fiquei chateado com esse boato. Não queremos essa imagem para o nosso esporte.