
O dono da única mega rampa fixa do mundo - localizada no quintal da sua casa na Califórnia -, e idealizador do Oi MegaRampa, o brasileiro Bob Burnquist contou à Gazeta Adventure como foi o processo de criação da pista mais radical do skate. Com 105 metros de extensão e 27 de altura (equivalente a um prédio de nove andares), a estrutura é dividida em três partes: o salto ou gap (com as opções de 50 e 70 pés), a rampa de aterrissagem e o quarter pipe.
A modalidade, chamada de Big Air nos Estados Unidos, estourou no mundo nos últimos dois anos. Desde então, tem se criado novos obstáculos como o corrimão, que fez parte do desafio do Oi MegaRampa, realizado neste fim de semana no Sambódromo do Anhembi em São Paulo. Confira a seguir a entrevista com Bob Burnquist.
Gazeta Adventure: Qual é a história da mega rampa?
Bob Burnquist: A criação da mega foi um processo. No início, nasceu o quarter pipe, uma idéia do atleta de BMX Mat Hoffman que pensou: “quanto maior o quarter, mais alto o aéreo”. Ele provou sua idéia quando alcançou 26 pés em 1993. Depois, aquilo ficou parado por um tempo até que o Danny Way tentou trazer isso para o skate. Ele construiu uma rampa menor que a do Hofman, mas a idéia era a mesma. O lado do salto é usado no street desde os anos 80, que tinha rampas de um metro, onde a gente fazia as manobras e caía no chão. Com o tempo, se criou uma rampa de aterrissagem, que tinha potencial para a evolução. Nos primeiros eventos eu já pensava que funcionaria melhor se essa rampa fosse maior, diminuiria a margem de erro. Teve um que passou da rampa, caiu no flat e quebrou o pé.
GA: Quando juntou os dois lados?
BB: Em um evento chamado King of Skate deram um orçamento pra mim, Danny Way, Tony Hawk, e alguns outros skatistas, para montar o que quisesse. Era uma competição de idéias. Então, o Danny montou um salto e um quarter para tentar quebrar o recorde de distância e de aéreo de uma só vez. Ele construiu lá uma rampa meio estranha, e não conseguiu bater os dois recordes ao mesmo tempo, bateu um e depois o outro. Nessa mesma competição eu construí o looping e acabei sendo votado o vencedor. Mas o que o Danny criou conseguiu fazer com que as atenções se voltassem para a mega rampa.
GA: A rampa do Danny já era do tamanho que é hoje?
BB: As dimensões foram mudando bem pouco até que se estabeleceu há dois anos. A rampa do Danny tinha uma dimensão e, quando eu montei ela em casa, mudei para ter uma trajetória maior e mais suave. Aí ele colocou o corrimão e eu construí o manual ped, trazendo o street para a mega em uma distância muito maior, e fomos criando, dividindo as idéias. A gente nunca teve receio de passar informação, estávamos interessados na segurança um do outro. Até apoio moral a gente dá. Ser o primeiro a fazer alguma coisa é muito arriscado e difícil.
GA: A sua pista é igual a do Oi MegaRampa?
BB: A diferença da pista de casa para essa é que o rolin (o salto) não é tão íngreme porque eu tenho vizinhos e tive que usar a geografia do lugar. Aqui o ângulo é de 80º e eu usei um ângulo de uns 22º, então é mais longo, mas ele chega na mesma altura e é isso que importa. Independente do ângulo, você tem que ter a altura de 50 pés para alcançar a velocidade necessária para um bom aéreo. O primeiro salto em casa foi difícil porque eu achava que estava indo muito devagar, mas na verdade chegava sempre rápido no final. Aqui não, a gente já desce na pressão e já salta, chega mais rápido.
GA: A sua pista logo ficou movimentada?
BB: Inicialmente, andava mais o Danny e eu. Eu andei muito sozinho porque nem sempre a galera queria andar na megarampa, e realmente não é assim, de se brincar. Mas eventualmente, o grupo todo que anda na mega treina lá em casa. Em pré-evento, eu até separo em grupos porque tem muita gente.
GA: Já tem um grupo de skatistas especializado na mega?
BB: A galera vai evoluindo e, realmente, a categoria está muito mais competitiva. Temos conversado para criar um ranking mundial da mega para o ano que vem. Já tem três eventos: os X Games, o Oi MegaRampa e um que vai estrear em outubro na Austrália. Se juntar, podemos fazer um ranking para oficializar ainda mais a modalidade.
GA: Quem faria parte desse ranking?
BB: Acho que os doze atletas que estão aqui. Acredito que a competitividade role até o nono lugar e a competição maior vem lá dos quatro primeiros. O Brasil tem a potência para a mega, tem muitos praticantes. Acho que por eu ter uma rampa em casa e ser brasileiro, eles tenham uma abertura maior. É quase que um pequeno pedaço do Brasil lá nos Estados Unidos.
GA: Existem projetos para construir mais mega rampas fixas?
BB: O Danny foi o primeiro que teve a rampa e por muito tempo as pessoas treinaram lá (hoje não existe mais). Agora eu tenho a minha, que foi o que segurou a mega, eu deixava todo mundo andar e hoje em dia é a única presente. Sei que o Danny tem lá as visões dele. Ele comprou um terreno no Havaí e está querendo construir um complexo, com suas rampas e idéias diferentes, porque tudo evolui. Como evento, temos a idéia de levar para o mundo todo, mas uma rampa fixa é mais difícil.
GA: Você acompanha todos os eventos?
BB: Eu acompanho porque realmente é uma modalidade que eu adoro e estou tentando focar bastante, mas também dentro da realidade. A mega é uma modalidade bastante perigosa, chacoalha e deixa o corpo bem machucado, principalmente em uma competição onde a gente está tentando fazer o melhor e empurrar os limites. Então tem que ter um tempo entre os eventos. Pelo menos três a quatro eventos por ano é o ideal.
GA: A modalidade evolui como você imaginava?
BB: Está evoluindo bem, muito mais até do que a gente imaginou. Hoje em dia todo mundo conhece a mega no Brasil, nos Estados Unidos, e agora com o lançamento do filme ("X Games 3D") está mais evidente. Teve um drama tão grande também com o tombo do Jake (Brown, nos X Games 2007) e fez com que a galera abrisse o olho para o risco e a habilidade de quem está ali.
GA: O que você acha da participação do Pedro Barros, com apenas 14 anos?
BB: Acho que as habilidades falam mais alto. Eu não sou a mãe dele, então eu não fico tão preocupado assim, e como eu caio também, se ele cair eu posso rir junto. Mas se eu posso tranqüilizar os pais, realmente o Pedrinho tem uma habilidade, uma segurança e uma cabeça muito diferente de qualquer outro menino da sua idade. Ele mostra que a mega tem futuro e tem espaço para quem está começando agora. Uma criança de 14 anos andando em uma megarampa faz com que os outros corram atrás.